Impacto dos fatores de risco vascular nos desfechos clínicos de idosos com depressão recebendo eletroconvulsoterapia
Episódios depressivos são comuns; com prevalência mundial em torno de 4,4%, são considerados um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da qualidade da saúde do paciente.
O tratamento de primeira linha, que costuma ser realizado com inibidores seletivos da recaptação da serotonina, é moderadamente efetivo – apenas 30% dos pacientes atingem a remissão com uma terapia prescrita em dose e duração apropriadas. Além disso, em 50% dos casos, os sintomas persistem após o tratamento de segunda linha.
A depressão é um dos quadros psiquiátricos mais comuns na população idosa, e está associada a morbidade e mortalidade significativas, com perda de função, dependência e alta taxa de suicídio. Vários fatores contribuem para uma resposta ruim nesta população, como interação medicamentosa e baixa tolerância ao medicamento.
O uso da eletroconvulsoterapia (ECT) é comum no idoso, mas há uma grande variabilidade na resposta nesta população (55% a 92%). Estudos de imagem sugerem que alterações vasculares, como profunda hiperintensidade na substância branca ou atrofia cerebral, podem explicar esta heterogeneidade, mas os resultados ainda são inconsistentes. Nos idosos, a síndrome apática – definida como diminuição da motivação para atividades físicas, cognitivas ou emocionais –, pode estar associada a mau prognóstico e resposta ruim ao tratamento.
Poucos estudos foram desenhados para investigar a relação entre a resposta da ECT e os fatores de risco vascular em idosos. Um deles explorou o impacto dos fatores de risco vascular na resposta ao tratamento em pacientes idosos deprimidos. Comparando tratamentos farmacológicos com a ECT, foi constatado a superior eficácia da mesma. Não houve diferença clara entre pacientes com ou sem os fatores de risco vascular. No entanto, outro estudo demonstrou uma significante diferença no tratamento farmacológico de pacientes idosos com ou sem os fatores de risco vasculares, constatando uma pior resposta nos pacientes que apresentavam estes fatores de risco.
O objetivo deste estudo é comparar a taxa de resposta ao ECT em pacientes idosos com ou sem fatores de risco vasculares. A hipótese dos autores é que a presenças dos fatores de risco se traduzirá em uma resposta pior ao ECT. Como desfecho secundário será avaliado a relação da severidade dos danos vasculares cerebrais pelo escore de Framingham e melhora clínica.
Foram incluídos 52 pacientes (idade acima de 55 anos) com depressão, os quais foram tratados com ECT e separados em dois grupos de acordo com a presença de fatores de risco vasculares (N = 20) ou não (N = 32). O desfecho primário foi o numero de bons respondedores ao ECT em cada grupo (definido como uma diminuição de ao menos 50% na escala MADRS após ECT). Pacientes com os fatores de risco vasculares apresentaram uma resposta pior quando comparados aos pacientes sem estes fatores de risco (60% a 94%). A correlação entre os escores de Framigham e MARDS após ECT foi negativa.
Para lembrar:
É importante que pacientes acima de 50 anos que apresentem os quadros de humor (sejam quadros depressivos ou maníacos), façam uma avaliação para alterações vasculares através de exame de ressonância magnética. Este exame, além da história de comorbidades clínicas são decisivos para se entender o diagnóstico e o prognóstico do paciente.
Artigo publicado no Medscape em 10 de fevereiro de 2021