Como identificar sinais do autismo? Especialista responde durante a campanha Abril Azul

Extra Interior – 1 de abril de 2026

Abril Azul é uma campanha dedicada à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), reforçando a importância do respeito, da informação e da inclusão. Ao longo do mês, ações em todo o país chamam a atenção para a necessidade de ampliar o entendimento da sociedade sobre o autismo, combatendo preconceitos e promovendo mais acolhimento às pessoas autistas e suas famílias.

A mobilização ganha ainda mais força no dia 2 de abril, data em que é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, criado pela Organização das Nações Unidas. Mais do que iluminar prédios de azul ou compartilhar mensagens nas redes sociais, a campanha propõe um debate necessário sobre diagnóstico precoce, acesso a tratamentos, inclusão escolar e oportunidades no mercado de trabalho.

Em um cenário em que cada vez mais famílias buscam informação e apoio, o Abril Azul também serve como convite à empatia. A campanha lembra que compreender o autismo é um passo essencial para construir uma sociedade mais justa, acessível e preparada para valorizar as diferenças.

O Extra conversou com o dr. Sivan Mauer, médico psiquiatra da infância e adolescência do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) (CRM/PR 19.196 | RQE- 19085) que falou da importância da campanha Abril Azul, quais são os principais sinais de alerta do autismo e quais terapias fazem parte do tratamento.

 

Extra – O que representa a campanha Abril Azul e qual é o principal objetivo desse movimento de conscientização?

Sivan – A campanha Abril Azul é um movimento internacional de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Seu principal objetivo é ampliar o conhecimento da sociedade sobre o autismo, reduzir o estigma, promover o diagnóstico precoce e incentivar a inclusão social, educacional e profissional das pessoas no espectro.

Extra – Por que é importante dedicar um mês inteiro para discutir o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

Sivan – Porque o autismo ainda é cercado por desinformação e preconceitos. Dedicar um mês ao tema permite aprofundar o debate, sensibilizar diferentes setores da sociedade e fomentar políticas públicas mais efetivas.

Extra – Quais são os principais sinais de alerta do autismo que pais e responsáveis devem observar nas crianças?

Sivan – Os principais sinais incluem atraso ou ausência de fala, pouco contato visual, falta de resposta ao nome, dificuldade de interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos.

Extra – Em que fase da infância normalmente surgem os primeiros indícios do transtorno e quando é recomendado procurar avaliação especializada?

Sivan – Os primeiros sinais costumam aparecer entre 12 e 24 meses de vida. A recomendação é procurar avaliação especializada assim que houver qualquer suspeita.

Extra – O diagnóstico precoce pode mudar o desenvolvimento da criança com autismo? De que forma isso acontece na prática?

Sivan – Sim. Permite intervenções precoces em fase de alta plasticidade cerebral, favorecendo linguagem, habilidades sociais e autonomia.

Extra – Quais são os maiores desafios enfrentados pelas famílias após a confirmação do diagnóstico?

Sivan – Impacto emocional, dificuldade de acesso a terapias, custos financeiros, sobrecarga e falta de suporte institucional.

Extra – A escola tem papel fundamental na inclusão. Como as instituições de ensino podem se preparar melhor para receber alunos com TEA?

Sivan – Capacitação da equipe, estratégias individualizadas, suporte multiprofissional e ambiente estruturado e inclusivo.

Extra – Ainda existem muitos mitos sobre o autismo. Quais são os mais comuns?

Sivan – Autistas não têm afeto; vacinas causam autismo; todo autista é igual; autismo tem cura — todos são mitos.

Extra – Quais tipos de terapias fazem parte do tratamento?

Sivan – Terapia comportamental, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicoterapia e acompanhamento médico.

Extra – Que mensagem deixar para a sociedade?

Sivan – O autismo deve ser compreendido, não corrigido. Inclusão exige adaptação social, respeito e informação.


Alotriofagia: conheça o “transtorno de pica”, distúrbio que leva pessoas a se alimentarem de objetos não-comestíveis

Doença foi tema de artigo científico publicado em junho na renomada revista americana de medicina “Cureus”, por professores da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) e outros especialistas.

Um artigo científico assinado por professores da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) e outros médicos ganhou repercussão nacional e internacional nos últimos dias. Publicado na renomada revista americana de Ciências Médicas “Cureus” em 19/06, o texto fala sobre Alotriofagia, também conhecido como “transtorno de pica”- síndrome na qual o paciente sente uma vontade irresistível de comer coisas que não são comestíveis e muito menos nutritivas, e o pior: que ele sabe que não deveria comer.

A publicação traz um estudo de caso de um homem de 33 anos de idade, diagnosticado com problemas psiquiátricos, e que foi internado em Curitiba (PR) seguidas vezes por ingerir objetos como caneta esferográfica, cateteres intravenosos e até um oxímetro. Alguns desses itens foram removidos por endoscopia, mas outros foram retirados por cirurgia.

Caracterizado pelo consumo compulsivo de objetos não comestíveis e não nutritivos, como terra, plástico, e, no caso do paciente em questão, objetos médicos, o “transtorno de pica” pode surgir por diversas causas, como deficiência nutricional e também transtorno psiquiátrico. Os casos mais graves podem causar perfurações, obstruções intestinais, intoxicações e até mesmo risco de morte. O tratamento inclui acompanhamento médico, nutricional e psiquiátrico.

Relação com esquizofrenia

De acordo com o psiquiatra Sivan Mauer, professor da FEMPAR e um dos autores do artigo, os casos de Alotriofagia são frequentemente relatados em pacientes com diagnóstico de esquizofrenia – transtorno mental crônico que compromete o funcionamento cognitivo e comportamental do indivíduo, podendo levar a maior impulsividade e a comportamentos de risco, como a ingestão de corpos estranhos. Segundo a publicação, “o presente relato de caso tem como objetivo descrever um episódio de Alotriofagia em um paciente esquizofrênico, discutindo suas implicações clínicas e terapêuticas. O paciente, do sexo masculino, com diagnóstico prévio de esquizofrenia, apresentou episódios recorrentes de ingestão de objetos, incluindo canetas, escovas de dentes, eletrodos de monitorização cardíaca e fragmentos de vidro. Durante a internação hospitalar, foram realizadas intervenções cirúrgicas para a retirada dos corpos estranhos, além de ajustes no tratamento psiquiátrico com antipsicóticos e estabilizadores de humor. Apesar dessas medidas, o paciente persistiu com o comportamento compulsivo de ingestão, necessitando de múltiplas reinternações”, diz o texto. O artigo conta também com a participação de utro professor da FEMPAR, Dr. Carlos Naufel, cirurgião geral e do aparelho digestivo.

Desafio significativo à prática médica

As implicações clínicas e terapêuticas em casos de pacientes com o transtorno de pica são vistas como “desafiadoras à prática médica”. A reavaliação contínua do tratamento psiquiátrico, o suporte psicossocial estruturado e estratégias de contenção são essenciais para minimizar os riscos e reduzir a recorrência desse comportamento. “Conclui-se que a alotriofagia em pacientes esquizofrênicos representa um desafio significativo à prática médica, demandando protocolos integrados que combinem monitoramento clínico, intervenções farmacológicas eficazes e apoio social contínuo. Além disso, a escassez de estudos longitudinais sobre a relação entre alotriofagia e esquizofrenia reforça a necessidade de mais pesquisas voltadas ao desenvolvimento de alternativas terapêuticas e estratégias preventivas”, relata um trecho do artigo.


Antidepressivos podem causar efeitos colaterais por mais tempo do que você imagina

Pesquisa britânica ressalta que sintomas de abstinência duram meses ou até anos, e podem ser confundidos com 'recaídas'

A estudante Brenda Schulz, 25, de Vitória (ES), passou por um longo tratamento com o uso de medicamentos antidepressivos. Foram três anos, no total. Conforme o avanço da terapia, com acompanhamento psiquiátrico, chegou um ponto em que percebeu ter alcançado um certo nível de estabilidade. Então, em uma das consultas, afirmou que gostaria de deixar o remédio. O que ela não imaginava era que o processo da retirada (ou “desmame”, como se costuma falar) levaria tanto tempo e exigiria tanto esforço.

Brenda não está sozinha. Um estudo da University College London (UCL), publicado neste ano no periódico científico Psychiatry Research, mostrou que a interrupção do uso de antidepressivos pode levar a efeitos colaterais duradouros, sobretudo para quem toma esse tipo de medicação por muito tempo.

Os pesquisadores britânicos analisaram relatos de tentativas de suspensão de antidepressivos de 310 pessoas. Do total, 79% declararam terem vivido pelo menos um sintoma de abstinência durante o processo de interrupção do uso. Mais da metade dos participantes que usaram os antidepressivos por dois anos ou mais afirmou ter falhado ao tentar suspender. Apenas 21% relataram a mesma experiência, entre os que utilizaram os fármacos por menos tempo – uma queda considerável.

Segundo o levantamento, o uso prolongado e a escolha de medicamentos mais potentes estão associados à percepção de mais sintomas da chamada síndrome da retirada, que pode surgir na fase de interrupção do uso de antidepressivos. Estes sintomas podem ser físicos, como tonturas, dores de cabeça, sensação de “choques elétricos” ou “raios” na cabeça, suor e calafrios; ou emocionais, como irritabilidade, humor deprimido e ansiedade, entre outros. A síndrome também pode causar alterações no sono e questões gastrointestinais, como vômitos e diarreias.

Em comunicado à imprensa, os cientistas da UCL reforçaram a importância de novas pesquisas sobre protocolos de redução mais eficientes e apontaram que as prescrições devem ser criteriosas. “Esta é uma das razões para não usar antidepressivos por mais tempo do que o necessário, porque isso pode tornar mais difícil parar de usá-los mais tarde”, afirmou o psiquiatra Mark Horowitz, autor principal do trabalho.

Por quanto tempo os antidepressivos podem ser usados?

Não há dados seguros que indiquem a prescrição de medicamentos antidepressivos por mais de seis meses. Quem afirma é o psiquiatra Sivan Mauer, professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR). “Esse tipo de medicação não é inócuo, ou seja, não é livre de efeitos colaterais. Apesar disso, é comum receber no consultório pacientes que tomam há 15, 20 anos”, relata. Ele reforça a conclusão do estudo, atestando que a síndrome da retirada de antidepressivos, de fato, é mais frequente em pacientes que usam a medicação há mais tempo.

Brenda, que fez uso de antidepressivos por três anos, é um exemplo disso. Ela começou o acompanhamento psicológico entre a infância e a adolescência, por conta de perdas e conflitos familiares. “Fiquei emocionalmente pior depois de entrar na universidade, por autocobrança”, diz ela, que cursa Engenharia de Produção. Quando o psiquiatra prescreveu o antidepressivo, não havia indicação de prazo. “Tudo dependeria do meu progresso com a terapia e com as medicações. Primeiro tentamos uma, que não ajudou. Então, mudamos para outra, com maior dose”, descreve.

Quando se sentiu preparada para iniciar a retirada, a estudante conversou com o psiquiatra, que reduziu a dosagem. Então, os sintomas da síndrome vieram com tudo. “Nas primeiras semanas, sentia alteração do sono, dores de cabeça frequentes, além de um pouco de tremor e irritabilidade”, recorda-se. “Mesmo antes de iniciar a retirada, nos dias em que esquecia de tomar o remédio, tinha todos esses sintomas, mas de forma mais intensa, inclusive com sensação de choque e náuseas”, acrescenta.

O tipo de antidepressivo, no entanto, também influencia. “Alguns causam mais abstinência do que outros na retirada”, explica o psiquiatra Henrique Bottura, presidente do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP). “Os que chamamos de perfil ‘dual’, ou seja, que agem em dois neurotransmissores, principalmente serotonina e noradrenalina, têm um perfil um pouco mais difícil de retirada”, destaca.

Um dos desafios para os psiquiatras que acompanham a suspensão é identificar a origem das queixas. Quando os sintomas de abstinência são diagnosticados como recaída, a pessoa pode voltar para o medicamento e tomá-lo por mais tempo do que o necessário.

“Nem todo paciente que retira o antidepressivo terá um novo episódio depressivo. Normalmente, o que acontece logo em seguida ao início da suspensão, em um paciente estável, é devido à retirada”, alerta o professor Mauer. Só que manter a prescrição por um período prolongado, como atestado pelo estudo britânico, pode dificultar ainda mais a suspensão. Algumas pessoas passam a ter episódios de depressão ou ansiedade com menor intervalo do que ocorria no início do uso, uma vez que a sensibilidade do cérebro ao medicamento tende a reduzir com o tempo.

Um passo de cada vez

O principal passo para conseguir enfrentar o período da retirada com sucesso, mesmo diante de todas as dificuldades, é entender as etapas e as razões do processo. Segundo Mauer, este é um dos principais obstáculos. “O paciente precisa compreender que já não há necessidade de uso do antidepressivo. Ainda que ele esteja triste, em alguns casos, que devem ser avaliados individualmente pelo psiquiatra, o próprio antidepressivo pode estar piorando este sintoma”, explica. Pois, como dito acima, o cérebro se ajustar ao uso do medicamento e os episódios voltam a ocorrer com mais frequência. Daí a necessidade de fazer a retirada no tempo adequado.

O professor destaca, ainda, que é preciso orientar a pessoa com honestidade, adiantando que, durante o processo, ele pode passar por momentos difíceis e necessitar de apoio. “A família também deve entender isso, para oferecer o suporte adequado”, afirma o professor. “É um passo para uma melhora mais duradoura”, acrescenta.

A suspensão, porém, não pode ser feita de forma repentina ou abrupta. Assim, reduz-se o risco de instabilidade e da confusão dos sintomas com os de uma recaída, que pode levar ao retorno à medicação. O especialista observa que cada pessoa deve ser orientada individualmente. “Não há uma receita de bolo. O importante é fazer isso de forma programada, sempre em discussão conjunta com o médico”, sugere Bottura, do IPP.

Em geral, o médico vai reduzindo a dosagem dos medicamentos aos poucos, muitas vezes, fracionando-os em uma farmácia de manipulação. A mudança e a intercalação com outras medicações também podem ser medidas eficazes.

Além de tudo isso, é importante observar outros fatores na rotina do paciente. Para Brenda, alterações no estilo de vida foram ferramentas fundamentais no sucesso da retirada dos antidepressivos. “Me apeguei muito à musculação e, mais tarde, à corrida e isso me abriu espaço e energia para passar tempo de qualidade com amigos e família, que me ajudaram bastante também”, descreve a estudante. “Quando estamos nessa situação, isolamento social é comum, mas estar entre pessoas de quem se gosta faz total diferença”, afirma.

Hoje, faz dois anos que ela deixou os antidepressivos. Compreender tudo o que a levou até ali e conhecer a si mesma foram etapas indispensáveis. “Me sinto leve, mais consciente do que gera gatilhos e mais apta a entender os sinais que a mente e o corpo dão. Sou mais paciente comigo mesma”, completa. Tudo indica que paciência é mesmo uma palavra-chave aqui.

Fonte: Istoé


Associação entre Temperamento Afetivo e Obesidade Mórbida: Estudo de Caso-Controle

Sivan Mauer Associação entre Temperamento Afetivo e Obesidade Mórbida: Estudo de Caso-Controle APA

Dr. Sivan Mauer e Dr. Alexandre Karam J. Mousfi, representando a Faculdade Evangélica Mackenzie, apresentaram recentemente um estudo inovador na American Psychiatric Association (APA), explorando a associação entre temperamento afetivo e obesidade mórbida. Este estudo é um passo importante na compreensão das complexas interações entre fatores psicológicos e emocionais e a obesidade mórbida.

Compreendendo os Temperamentos Afetivos

Os temperamentos afetivos, componentes do espectro dos transtornos de humor, incluem hipertimia, distimia e ciclotimia. Hipertimia caracteriza-se por um estado maníaco leve e crônico, distimia por sintomas depressivos leves e persistentes, e ciclotimia por alternâncias constantes entre sintomas maníacos e depressivos. Estudos anteriores já demonstraram uma forte correlação entre obesidade e transtornos de humor, mas a investigação sobre como esses temperamentos específicos podem influenciar a obesidade mórbida ainda é limitada.

Objetivo do Estudo

O objetivo deste estudo foi avaliar a frequência dos três principais tipos de temperamentos afetivos em pacientes com obesidade mórbida e em controles sem diagnóstico de obesidade. Além disso, buscou-se estabelecer uma possível associação entre temperamentos afetivos e obesidade mórbida em pacientes candidatos à cirurgia bariátrica.

Metodologia

O estudo adotou um desenho transversal caso-controle.

Participantes: 106 casos (pacientes com obesidade mórbida) e 100 controles (não obesos).

Critérios de Inclusão

Controles: IMC < 30 kg/m², maiores de 18 anos, colaborativos e que assinaram o consentimento informado.

Casos: IMC ≥ 40 kg/m² ou ≥ 35 kg/m² com comorbidades, em acompanhamento pré-operatório de cirurgia bariátrica, maiores de 18 anos, colaborativos e que assinaram o consentimento informado.

Critérios de Exclusão: Recusa em colaborar, comprometimento funcional ou sensorial, gravidez e cirurgia bariátrica prévia.

Avaliação de Temperamento: Aplicação da escala TEMPS-Rio de Janeiro.

Avaliação de Sintomas: Sintomas depressivos, de ansiedade e maníacos foram avaliados pelas escalas de Hamilton e Young.

Análise Estatística: Modelos de Regressão Logística foram utilizados para análise univariada e multivariada, com odds ratio e intervalos de confiança de 95%.

Resultados

Os resultados revelaram que 74,5% dos indivíduos com obesidade mórbida apresentavam pelo menos um tipo de temperamento afetivo, em comparação com 63% do grupo controle. A análise detalhada mostrou que, entre os participantes com 50 anos ou mais, aqueles com temperamento hipertímico tinham 2,56 vezes mais chances de serem obesos mórbidos.

Outros achados incluem:

Prevalência de Diagnósticos Psiquiátricos:
33% dos pacientes com obesidade mórbida relataram algum diagnóstico psiquiátrico, comparado a 19% no grupo controle.

Comorbidades Clínicas:
79,2% dos indivíduos obesos mórbidos apresentavam comorbidades como hipertensão (45,2%), diabetes mellitus (31,3%) e dislipidemia (22,6%).

Tratamentos Psiquiátricos:
Maior número de indivíduos em tratamento psiquiátrico e psicoterapia no grupo de obesos mórbidos.

Discussão

A descoberta de que a hipertimia, entre os três temperamentos afetivos avaliados, é um fator de risco para obesidade mórbida, especialmente em indivíduos com 50 anos ou mais, é significativa. Esses temperamentos com sintomas maníacos, como hipertimia e ciclotimia, podem contribuir para comportamentos alimentares disfuncionais e, consequentemente, obesidade mórbida.

A prevalência de transtornos de humor e ansiedade em pacientes com obesidade mórbida reforça a necessidade de uma abordagem holística que considere fatores psicológicos e emocionais no tratamento da obesidade.

Conclusões

Este estudo evidencia que, na faixa etária de 50 anos ou mais, indivíduos com temperamento hipertímico têm uma chance significativamente maior de desenvolver obesidade mórbida. Essas descobertas sublinham a importância de integrar avaliações de temperamento e saúde mental no manejo da obesidade mórbida.

Para mais detalhes e acesso completo aos dados do estudo, o pôster apresentado por Dr. Sivan Mauer e Dr. Alexandre Karam J. Mousfi está disponível para download.


'Um filho': filme que retrata a realidade de muitas famílias

Este texto contém spoilers do filme “Um Filho”.

O excelente longa-metragem “Um filho”, de Florian Zeller — mesmo diretor de “Meu pai”, que retrata um paciente com demência — pode passar despercebido por muitos, o que seria uma pena. O filme vai além da beleza artística e nos traz a oportunidade de discutir um assunto importante e sensível para muitas famílias: a doença psiquiátrica nos adolescentes, tema que ultrapassa a relação entre pais e filhos.

Muitas vezes a doença psiquiátrica nessa faixa etária é tratada como algo passageiro, como uma “fase”, fazendo com que muitas vezes os pacientes cheguem nos consultórios ou nos serviços de emergência com uma sintomatologia muito mais agravada.

A história do filme se inicia com a conversa de um casal divorciado sobre as dificuldades acadêmicas de seu filho adolescente, Nicholas, que não ia à escola fazia um mês. A mãe notara mudanças no comportamento do rapaz, e por isso o pai, Peter, tem uma conversa com o jovem. Nessa conversa, Nicholas pede para se mudar para a casa do pai, que está no segundo casamento e tem um bebê recém-nascido. Peter nota marcas no antebraço de Nicholas, mas não entende o que levaria o seu filho a se automutilar, afinal de contas o rapaz tem momentos nos quais “até sorri”.

Automutilação é algo bastante comum entre adolescentes e adultos jovens.[1] Normalmente, começa entre 13 e 14 anos de idade, e muitas vezes tem a função de aliviar emoções negativas, acalmar ou trazer alívio ao indivíduo. Alguns estudos associam a automutilação a sintomas de mania na adolescência.[2] Outro dado importante é que ao menos 60% dos pacientes com transtorno bipolar se automutilarão ao menos uma vez na vida.[3] A automutilação e os comportamentos suicidas são muitas vezes entendidos como um contínuo.[1] Nos últimos anos, novos dados têm apontado a automutilação como um fator de risco de comportamento suicida. Estudos mostram que a automutilação não tem o objetivo de “chamar atenção”, como muitos acreditam.[1] Um estudo de 2020 com adolescentes entre 12 e 17 anos mostrou uma prevalência de ideação suicida de 14%.[4]

Nicholas, o adolescente do filme, continua faltando às aulas mesmo após ir morar com o pai e trocar de escola. Em uma nova conversa entre os dois, o jovem explica que, para ele, a vida é um fardo grande para se carregar.

Muitos adolescentes com sintomas de ansiedade encaram a escola e o convívio social em geral como um grande desafio. Um estudo de 2020 registrou 9% de prevalência de ansiedade em adolescentes entre 12 e 17 anos nos 12 meses anteriores à coleta dos dados.[5] O absenteísmo escolar é um sinal de alerta muito importante para pais, profissionais da saúde e educadores. Segundo o mesmo estudo, a prevalência de absenteísmo escolar em um mês foi de 30,2% em uma população de 268.142 adolescentes de 69 países de baixa e média renda.[5] O trabalho conclui que a taxa de absenteísmo é maior entre meninos e meninas com ansiedade. Uma revisão sistemática de 2019 também sugere associação entre ansiedade e absenteísmo escolar.[6] Estudos têm colocado sintomas de ansiedade na infância e adolescência como fator de risco/pródromo de transtorno bipolar na idade adulta.[7-9]

Nicholas tenta o suicídio. Ele é então internado na ala psiquiátrica de um hospital geral e seus pais são chamados para uma conversa com o psiquiatra assistente, que recomenda que o jovem permaneça internado por mais tempo. Nicholas se enfurece com a aquiescência dos pais em mantê-lo internado. No caminho de volta para casa, o casal muda de ideia e retorna ao hospital para assinar a alta, contra a orientação do psiquiatra. Nicholas volta para casa feliz, faz um café para os seus pais, e eles combinam de ir ao cinema. Quando Nicholas vai para o quarto se arrumar, um estampido de um tiro é ouvido pelos pais. Nicholas se suicidou.

Devemos aqui nos questionar quanto ao quadro clínico do adolescente. Nicholas estaria deprimido? O que é difícil de enxergar nesse caso é que muitos adolescentes que apresentam ansiedade, irritabilidade, automutilação, impulsividade e tentativas de suicídio não estão deprimidos, mas sim em um estado misto, ou depressão mista. Desde os anos 1980, quando a doença maníaco-depressiva foi dividida em transtorno bipolar e depressão maior, o meio psiquiátrico deixou de enxergar os estados mistos. Isto ocorre porque deixa-se de lado o conceito kraepeliniano, que valoriza o curso recorrente dos episódios, sejam eles de mania, melancolia ou mistos, e volta-se para o conceito leonhardiano, que prioriza os polos e faz com que os quadros depressivos mistos sejam abarcados pelo conceito de transtorno depressivo maior.[7] Possivelmente, os estados mistos são a apresentação mais comum do transtorno bipolar em adolescentes.[8] Outro dado importante é que episódios “depressivos” antes dos 25 anos estão mais ligados ao diagnóstico de transtorno bipolar.[9] Esses dados são de extrema relevância, pois existe uma grande influência do quadro no tratamento escolhido e no risco de suicídio. A incidência de transtorno bipolar entre adolescentes é baixa quando comparada à de transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade.[10, 11]

Os quadros mistos são um fator de risco bastante relevante para o suicídio, pois os sintomas juntam a ideação suicida com o impulso para colocá-la em prática. Em um estudo realizado com 1.560 adultos jovens entre 18 e 24 anos, concluiu-se que existe um risco de suicídio mais de 13 vezes maior em pacientes que apresentam quadros mistos, quando comparados aos controles.[12] Um outro estudo mostra que 81,3% dos pacientes que tentaram o suicídio tiveram êxito em até um ano após uma tentativa anterior,[13] exatamente o que é ilustrado no filme com o suicídio de Nicholas.

Outra questão relevante é o grande aumento do uso de antidepressivos e sua relação com a elevação do risco de suicídio. Uma revisão sistemática identificou um risco mais de cinco vezes maior em adolescentes usuários de antidepressivos em relação aos que não faziam uso desses fármacos.[14] Para se ter ideia, entre 1998 e 2018 o uso de antidepressivos triplicou no Reino Unido.[15] No Brasil o uso só do antidepressivo vortioxetina aumentou 336,2% entre 2014 e 2019.[16, 17] Quadros mistos não devem ser tratados com antidepressivos e, sim, com estabilizadores do humor e antipsicóticos de segunda geração.[18, 19] O uso de lítio é recomendado em casos como os de Nicholas, principalmente na prevenção do suicídio.[20] Outro dado importante entre adolescentes vem de um estudo sueco que demostrou que, quanto mais diagnósticos de transtorno bipolar — e consequentemente a adoção do tratamento correto —, menor a taxa de suicídio.[21]

O filme “Um Filho” evidencia as dificuldades enfrentadas pelos pais quando são confrontados com a realidade das doenças psiquiátricas em seus filhos adolescentes. A adolescência é uma fase de transformação, mas a ideia de que todas as alterações comportamentais são reflexos deste momento é perigosa. É importante que o pediatra, o clínico geral e o psiquiatra fiquem atentos a alguns sinais de alerta, como história familiar de suicídio e transtorno bipolar, automutilação, agitação psicomotora, ansiedade, abuso de substâncias e isolamento. Muitos desses sinais de alerta foram dados por Nicholas.

Referências

1. Klonsky, E. D., Victor, S. E. & Saffer, B. Y. Nonsuicidal self-injury: What we know, and what we need to know. Can. J. Psychiatry 59, 565–568 (2014).2. Fang, D. et al. Association between hypomania and self-harm behaviors in Chinese children and adolescents with depressive symptoms. Front. Psychiatry 13, (2022).

3. Esaki, Y. et al. Higher prevalence of intentional self-harm in bipolar disorder with evening chronotype: A finding from the APPLE cohort study. J. Affect. Disord. 277, 727–732 (2020).

4. Biswas, T. et al. Global variation in the prevalence of suicidal ideation, anxiety and their correlates among adolescents: A population based study of 82 countries. (2020). doi:10.1016/j.eclinm.2020.100395

5. Dalforno, R. W., Wengert, H. I., Kim, L. P. & Jacobsen, K. H. Anxiety and school absenteeism without permission among adolescents in 69 low- and middle-income countries. Dialogues Heal. 1, 100046 (2022).

6. Finning, K. et al. Review: The association between anxiety and poor attendance at school – a systematic review. Child Adolesc. Ment. Health 24, 205–216 (2019).

7. Ghaemi, S. N. Bipolar spectrum: a review of the concept and a vision for the future. Psychiatry Investig. 10, 218–224 (2013).

8. Dilsaver, S. C., Benazzi, F. & Akiskal, H. S. Mixed states: the most common outpatient presentation of bipolar depressed adolescents? Psychopathology 38, 268–272 (2005).

9. Ghaemi, S. N., Ko, J. Y. & Goodwin, F. K. ‘Cade’s disease’ and beyond: misdiagnosis, antidepressant use, and a proposed definition for bipolar spectrum disorder. Can J Psychiatry 47, 125–134 (2002).

10. Jensen, C. M. & Steinhausen, H. C. Time Trends in Lifetime Incidence Rates of First-Time Diagnosed Bipolar and Depressive Disorders Across 16 Years in Danish Psychiatric Hospitals: A Nationwide Study. J. Clin. Psychiatry 77, 21012 (2016).

11. Chung, W. et al. Trends in the Prevalence and Incidence of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Among Adults and Children of Different Racial and Ethnic Groups. JAMA Netw. open 2, e1914344–e1914344 (2019).

12. Sverdlichenko, I. et al. Mixed episodes and suicide risk: A community sample of young adults. J. Affect. Disord. 266, 252–257 (2020).

13. Bostwick, J. M., Pabbati, C., Geske, J. R. & McKean, A. J. Suicide attempt as a risk factor for completed suicide: Even more lethal than we knew. Am. J. Psychiatry 173, 1094–1100 (2016).

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17. Hoefler, R., Tiguman, G. M. B., Galvão, T. F., Ribeiro-Vaz, I. & Silva, M. T. Trends in sales of antidepressants in Brazil from 2014 to 2020: A time trend analysis with joinpoint regression. J. Affect. Disord. 323, 213–218 (2023).

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20. Mauer, S., Vergne, D. & Ghaemi, N. Standard and trace-dose lithium: A systematic review of dementia prevention and other behavioral benefits. Aust. New Zeal. J. Psychiatry 48, 809–818 (2014).

21. Andersson, P., Jokinen, J., Jarbin, H., Lundberg, J. & Boström, A. E. D. Association of Bipolar Disorder Diagnosis With Suicide Mortality Rates in Adolescents in Sweden. JAMA Psychiatry (2023). doi:10.1001/JAMAPSYCHIATRY.2023.1390

Artigo publicado no Medscape em 12 de junho de 2023


Lítio e rim: o que você precisa saber sobre esta relação

Na história da medicina o lítio já foi empregado como medicamento para gota, como hipnótico e como anticonvulsivante. Mas foram os resultados no controle da doença maníaco-depressiva que transformaram o medicamento no padrão-ouro para o tratamento do quadro – um status que dura até os dias atuais.

Neste episódio do Conversa de Médico o Dr. Sivan Mauer, psiquiatra e advisor do Medscape em português, e o Dr. Cristian Riella, nefrologista e pesquisador médico da Harvard University (EUA), esclarecem sobre as possíveis alterações renais observadas com o uso de lítio e afirmam: o risco é, na maioria das vezes, superestimado. É preciso saber prescrever e monitorar corretamente, alertam os dois especialistas, e a creatinina nem sempre é o melhor marcador para identificar lesão renal em pacientes em uso de lítio. Ouça o podcast e conheça algumas estratégias importantes para aumentar a proteção dos rins na vigência do lítio

Assista o vídeo.


Psiquiatria: Discussão de Caso Clínico II – Sistema DSM

Sistema DSM – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria

No sábado, dia 10 de julho de 2021, às 11 horas, haverá uma nova discussão de caso clínico conduzida pelo Dr. Sivan Mauer e pelo Dr. Alexandre Karam. Um dos pontos centrais discutidos será a questão crítica ao sistema DSM (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria). Além da discussão do caso iremos explicar o funcionamento do curso de atualização em psiquiatria, que terá início no próximo semestre. Tanto a discussão de caso como o curso são destinados a clínicos gerais, psiquiatras, residentes em psiquiatria, acadêmicos de medicina e psicólogos. O evento ocorrerá via Zoom e você pode acessar através do link abaixo.

LINK DO ZOOM PARA O EVENTO